O desejo invadia-lhe os sentidos sem vestígios de sensatez. Nunca se tinha habituado a ser sensato. Cloroformizar as suas pulsões e recalcar os sonhos nunca tinha sido uma opção. Assustava-se com os possíveis impactos das limitações conscientes quando a sua natureza era flutuante e maleável. Sentia uma coleira a reprimir-lhe os impulsos, espartilho insensato das emoções e uma tensão cortante acumulava-se por dentro. Não sabia amestrar as palavras que lhe queimavam nos dedos e sufocavam na garganta. Nunca tinha sequer sentido a necessidade de manejar habilmente o chicote interior para serenar o furor. Não sabia ser passivo. Apenas passional. A passividade, essa coisa neutra, para ele sempre fora a forma mais agressiva de destruição massiva. De destruição passiva.
Segunda-feira, 1 de Março de 2010
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5 comentários:
...ímpetos instintivos...
...reacção (defesa) natural contra a apatia?...
...ou a vida como ela deve ser (vivida)?...
...sem espaços para autodestruição...
nessa altura, barba azul assobiou, andou de bicicleta, cantou uma área de ópera
e
só depois...
muito depois, disse:...
não. não quis dizer nada...
no meio de gargalhadas nervosas, judith acrescentou:...
oh!...
porque esperas?
e
barba azul, disfarçando um sorriso malicioso, diz então:...
tranquila... eu direi isso ao jardineiro. acalma-te!
então judith, desesperada, arrancou os cabelos.
soltou gritinhos pouco legíveis
e
deu duas voltas à praceta de sua casa soltando frases repetidas:...
e tu barba azul?...
e tu barba azul?...
não me pareces seguro!?...
não me pareces seguro!?...
que se passa?
que se passa?
e
barba azul do cimo de uma torre do castelo, responde com a sua forte voz:...
pois...
esta é a minha primeira experiência.
tu sabes bem que...
uma passividade que oprime (ou será o desejo que se avoluma) e pesa (e eleva), destruindo impulsos (alimentando tensões) e castrando sonhos (e memórias?).
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