Passava muito tempo em esplanadas e mesas de café. Perdia-se a olhar para o vazio e escrevia. Sofregamente, por vezes. Vagarosamente, por outras. Um dia alguém o avistou. De caneta em riste. A esgrimir-se numa batalha épica literária, soltando vogais e consoantes com tal densidade, que não conseguiram interpelá-lo. Seguiram caminho, perdendo-se na multidão de sobretudos. Com a curiosidade metida nos bolsos dos casacos. A pergunta viria no dia seguinte, em jeito de provocação, na tentativa de encontrar uma resposta para aquecer a curiosidade: “Estavas a escrever uma carta de amor para alguém?”Mas ele estava cansado de jogos fátuos. Essas coisas ele só escrevia precisamente para ninguém, para quem ainda estava para vir, destinadas a quem apenas existia no seu flutuante imaginário e que possivelmente jamais se fixaria no plano das coisas terrenas. E essas coisas estavam todas arquivadas em segurança, aguardando a chama do dia. Do dia em que esse ninguém conseguisse encontrar-se, e não perder-se, no seu labirinto existencial.

3 comentários:
Que triste história.
... sofregamente perdia-se em batalhas interiores de uma densidade no mínimo curiosa...
... flutuantemente cansado chegava a considerar que a escrita lhe poderia ordenar o emaranhado confuso de pensamentos... quem sabe arquivando certos outros que, em segurança, deviam estar no passado...
No entanto... enredava-se ainda mais...
...para encontrar...
...ou para Se encontrar??!?
Go and see "Bright Star" ****
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