Segunda-feira, 12 de Abril de 2010

Nas suas mãos...

Uma cerveja no Inferno. É uma boa obra poética. Mas é muito mais que isso. Recordo-me que quando a recebi fiquei meia tarde a olhar para o título e a divagar. Hoje lembrei-me dela. Da obra. Não que aprecie cerveja. Não que admire o calor do Inferno. Mas uma cerveja fresquinha assim no meio do inferno parece-me bem. Nem que seja como mera analogia. A cerveja convida, refresca, arrasta e desperta os sentidos, atraindo-nos a ir buscá-la às profundezas do Inferno. E ficamos ali, perdidos, no epicentro das chamas e das labaredas emocionais.

Lembrei-me disto a propósito da obra “Nas suas mãos” que me resgatou a atenção desde a primeira linha. Personagens bem construídas numa incursão pelo inconstante mundo da submissão psicológica, pautado por uma violência emocional inquietante. Com alguém a entregar-se nas mãos de alguém, numa obsessão incontrolável pela cumplicidade na luxúria, tão doentia quanto saudável. Um livro que sabe a cerveja. No Inferno.

Sexta-feira, 9 de Abril de 2010

Deixa-me pintar a Estação

Deixa-me pintar a Estação da cor que tu mais gostas e saltar de uma palavra para a outra como se não houvesse gravidade e dá-me um guarda-chuva para flutuar quando tiver de cair torna-te temerária e deixa-me torcer a realidade como quem grita e murmura por mais mas dá-me a liberdade para inverter o curso de um rio qualquer um qualquer mesmo mesmo aquele que menos te interessar quero rebentar como um fogo de artifício a preto e branco que era o que eu sempre devia ter feito rebentar como um fogo de artifício a preto e branco com um estrondo de outra dimensão e sussurrar muito baixo eu não quero implodir quero explodir quero explodir quero explodir para depois desatar a correr a correr a correr a correr a correr até os músculos estalarem e deixa-me fechar os olhos para ver mais claro do que sempre como naquele dia em que nos desvendámos todos os dias me deito sobre mim e todos as noites relembro Outonos daqueles cheios de nevoeiro e de chamas em estalactites a perfurarem os sentidos os mesmo que me obrigam a encenar uma falsa calma enquanto danço de testa franzida à espera de um milagre qualquer e todas as noites adormeço apreensivo ao som do bater dos relógios da minha mente deixa-me agora mergulhar numa palavra escrita a tinta permanente e borrar o papiro chinês como naquele filme sem argumento e sem palavra e sem imagem que é a maior lição da minha vida não pensar em argumentos palavras e imagens e apenas correr até ficar cansado e beber um copo de martini para matar a sede e continuar a correr a correr a correr a correr de um lado para o outro para baixo da cama onde há astros desalinhados e por mais que corra não sei se sou capaz só quero um pouco de paz

Quinta-feira, 8 de Abril de 2010

Placebo effect

I know, you love the song but not the singer
I know, you want the sin without the sinner

Sou pelas palavras II

Já perdi a voz, já perdi avós, já me perdi em nós e já perdi momentos a sós. Já me perdi em pós. Já recalquei algo atroz. Já naveguei do interior dos sonhos até à foz e já gritei meio louco meio feroz. Já me senti a correr parado e já fiquei estagnado no instante mais veloz. Em todos estes momentos fui pelas palavras. É por lá que caminho. Por uma ponte de consoantes suspensa por inflexões de ritmo, com intertextualidades pendentes. Percorro-a pelas aliterações e através das pontuações, sem reticências... para pontuar o prazer. Porque sou pelas palavras. Uns são pelos cães. Eu sou pelas palavras. Outros são pelas acções. Bem sei que as acções falam. Mas as palavras, essas, actuam. Em qualquer filme ortográfico.

Segunda-feira, 5 de Abril de 2010

Para lá de

Não tenho culpa de ter asas no pensamento. Daquelas que me elevam para lá das nuvens, para lá dos limites da razoabilidade, para lá de qualquer galáxia ousadamente sonhada. Não tenho culpa se a razão, essa bastarda, nada me diz, em nada me orienta. Não tenho culpa de preferir flutuar por cima de tudo isso a ter os pés estancados no plano das coisas terrenas. Não tenho culpa de não pensar racionalmente nas coisas para lhes alargar o âmbito palpável. Prefiro-as assim. Moldáveis e flutuantes. Pois a lógica da razão alaga-me de coisas instáveis e inquietantes.

Quinta-feira, 1 de Abril de 2010

Blue Voodoo



Some piece of cloth you wear,
two buttons stitched as eyes,
sewed with strings of your hair,
stuffed with one thousand flies.

This is Blue Voodoo,
there ain’t nothing you can do.

Holding this doll in my left hand,
knowing deep it can’t be right,
a sharp pin on my right hand,
no power left for you to fight.

Do you feel a pain in your chest?
It don’t need no medical test,
it’s magic working on my request,
please don’t resist, it’s for the best.

Ouch! Does it hurt you?
Get used to the Blue Voodoo.
Oops! Does it affect you?
Made just for you this Blue Voodoo.


This is Blue Voodoo,
my way to get to you,
this is Blue Voodoo,
there ain’t nothing you can do.
Blue Voodoo,Voodoo Blue.

Segunda-feira, 29 de Março de 2010

Na língua dos sentidos

No mundo da culinária, o lume brando é um conceito sábio. O aquecimento gradual e ponderado potencia o sabor, minimiza os riscos de esturrar as iguarias e de queimar a caçarola. Já no mundo das emoções, o lume brando é um sarilho. Elas precisam de ferver. De borbulhar. De fazer saltar a tampa nos locais mais insuspeitos. Precisam de excesso de vapor e de pimenta. Na língua dos sentidos. Pois a chama curta corre sérios riscos de se desvanecer. À mínima corrente de ar.

Terça-feira, 23 de Março de 2010

Estalo.............-me

A noite pausa e queima. Agiganta-se e adensa-se. Precipita-se sobre os vestígios de sensatez com um toque abrasivo. Tudo estala. O silêncio como loucura à espreita. O vazio como dose imponderada da ausência. E uma trovoada emocional que não é travada pela insana sonolência. Por isso, e mais uma vez, tal como o Al Berto, “escrevo com um único fim: salvar o dia”.

Segunda-feira, 1 de Março de 2010

Armas de destruição passiva

O desejo invadia-lhe os sentidos sem vestígios de sensatez. Nunca se tinha habituado a ser sensato. Cloroformizar as suas pulsões e recalcar os sonhos nunca tinha sido uma opção. Assustava-se com os possíveis impactos das limitações conscientes quando a sua natureza era flutuante e maleável. Sentia uma coleira a reprimir-lhe os impulsos, espartilho insensato das emoções e uma tensão cortante acumulava-se por dentro. Não sabia amestrar as palavras que lhe queimavam nos dedos e sufocavam na garganta. Nunca tinha sequer sentido a necessidade de manejar habilmente o chicote interior para serenar o furor. Não sabia ser passivo. Apenas passional. A passividade, essa coisa neutra, para ele sempre fora a forma mais agressiva de destruição massiva. De destruição passiva.

Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2010

ArteSeries III, aqui vou eu...

Se não regressar, poderei ser encontrado perdido algures entre o reino do improviso e a ilha da imaginação. Dentro de um cadáver esquisito.

Domingo, 31 de Janeiro de 2010

Contorções

O meu corpo contorce-se ao primeiro sinal de ausência. E tal como o Herberto Hélder, “eu procuro dizer como tudo é outra coisa”. A ansiedade atravessa-me os poros e estala-me os ossos. Faz-me perder o sentido das proporções. A alvorada dos sentidos estremece-me de norte a sul. É crepitação copo a copo, transpiração corpo a corpo, inspiração boca a boca, emoção louca a louca. Não há banho que me lave. Tudo é intenso. Nada é suave.

Terça-feira, 26 de Janeiro de 2010

Era uma vez uma história

Poesia visual de Ana Hatherly
Texto de Ana Hatherly

«Era uma vez uma história tão impressionante que quando alguém a lia, o livro começava a transpirar pelas folhas. Se o leitor fosse muito bom o livro soltava mesmo algumas pequeninas gotas redondas de sangue».

Quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

Encontros

Encontros imediatos em cruzamentos públicos são complexos de gerir. Aliás, já dizia o filósofo e psicólogo norte-americano William James que “quando duas pessoas se encontram há, na verdade, seis pessoas presentes: cada pessoa como se vê a si mesma, cada pessoa como a outra a vê e cada pessoa como realmente é”. Daí a complexidade natural, agravada pelo clima do inesperado.

Mas quando ocorrem nas esquinas da imaginação convertem-se em tortura. Pura. Em pura tortura. Não se sabe o que fazer com esta visão e somos soprados para o campo da indecisão. E, uma vez mais, são as palavras de William James que nos entram pelos olhos, estancando-nos o fôlego e amortalhando-nos o coração: “Quando precisas de tomar uma decisão e não a tomas, estás a tomar a decisão de nada fazer. E não existe ser humano mais infeliz do que aquele em que a única coisa habitual é a indecisão”.

Sexta-feira, 15 de Janeiro de 2010

Labirinto existencial

Passava muito tempo em esplanadas e mesas de café. Perdia-se a olhar para o vazio e escrevia. Sofregamente, por vezes. Vagarosamente, por outras. Um dia alguém o avistou. De caneta em riste. A esgrimir-se numa batalha épica literária, soltando vogais e consoantes com tal densidade, que não conseguiram interpelá-lo. Seguiram caminho, perdendo-se na multidão de sobretudos. Com a curiosidade metida nos bolsos dos casacos. A pergunta viria no dia seguinte, em jeito de provocação, na tentativa de encontrar uma resposta para aquecer a curiosidade: “Estavas a escrever uma carta de amor para alguém?”

Mas ele estava cansado de jogos fátuos. Essas coisas ele só escrevia precisamente para ninguém, para quem ainda estava para vir, destinadas a quem apenas existia no seu flutuante imaginário e que possivelmente jamais se fixaria no plano das coisas terrenas. E essas coisas estavam todas arquivadas em segurança, aguardando a chama do dia. Do dia em que esse ninguém conseguisse encontrar-se, e não perder-se, no seu labirinto existencial.

Domingo, 10 de Janeiro de 2010

´cause I have never felt this way



I find shelter, in this way
Under cover, hide away
Can you hear, when I say?
I have never felt this way

Maybe I had said, something that was wrong
Can I make it better, with the lights turned on
Maybe I had said, something that was wrong
Can I make it better, with the lights turned on

Could I be, was I there?
It felt so crystal in the air
I still want to drown, whenever you leave
Please teach me gently, how to breathe

And I'll cross oceans, like never before
So you can feel the way I feel it too
And I'll mirror images back at you
So you can see the way I feel it too

Maybe I had said, something that was wrong
Can I make it better, with the lights turned on
Maybe I had said, something that was wrong
Can I make it better, with the lights turned on

Maybe I had said, something that was wrong
Can I make it better, with the lights turned on