segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Enche-se de Invernos a minha existência



Imprevistos em linha recta são mais fáceis de gerir. Imprevistos em plena curva acentuada originam despistes. Despisto-me. De forma épica. Antes assim. Não é impunemente que se desejam coisas. E se andava há séculos a citar o Verlaine, "como um brigue perdido entre as ondas do mar", com a alma a perseguir um "naufrágio maior", agora resta-me apertar as pálpebras e premir os lábios. Porque enchem de Invernos a minha existência.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Diz que é do tempo II

Mas não é. Do tempo. É das coisas. Assim no geral. Das coisas que acontecem de forma inesperada. Dos scones que não foram porque um estranho ensaiava saxofone. De janela aberta. No primeiro andar de um prédio de traça antiga. Paralisando-me os músculos. É da magia do bosque que se perdeu, atraindo a magia da cidade em dia de castanhas assadas. É de quem cruza a esquinas de forma destemida. É dos receios insondáveis. Dos perigos que não são. E dos tremores. Dos ardores. Dos destemores...

Suspensões

Agora escrevo. Crepitação. Aceito o que sinto. Não é essa a agitação. Apenas não sei como pensar. Por isso não penso. Caminho com o fôlego em suspenso.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Diz que é do tempo


Foi no primeiro dia de Outono. O frio teimava em não chegar. As folham insistiam em não cair. A chuva escondia-se ora lá em cima ora dentro de mim. Estava despido da sua pele própria. Disfarçado. O Outono. Tal como eu. Mas aos poucos, a estação foi avançando e foi adquirindo os seus contornos. Os contornos que lhe demarcam a unicidade. Estavam perdidos. Esquecidos desde a estação passada. Demorou a reencontrá-los. Até que o hálito morno das castanhas assadas lhe acenou. O fumo subiu, acumulou-se nas nuvens e o Outono caiu. Em cima de mim. E dentro. Cá dentro. Cá dentro de mim. Para não mais sair. Porque nunca tinha sentido o Outono assim.

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Excertos

Ventania cheia, de Outono
Durante toda a noite
Vagueei pelas margens do tempo.

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Why is everything so hazy?



O Outono tarda. Mas as folhas interiores começam a cair no átrio dos sentidos. Um manto castanho cobre-me de sinestesias delirantes sob inconstantes palpitações.

Apertos

Ocorro ao acaso do apelo,
sentado no peito
deslizante do aperto.
Acorro sem sequer saber
se te apanho e me solto
se me arranho e morro.

domingo, 4 de Outubro de 2009

Densidades

A escrita
adensa a densa
pretensão de sentir.
Por isso escrevo,
escravo dos sentidos.

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

Misunderstood



«Os signos não são provas, pois qualquer pessoa os pode produzir, falsos ou ambíguos. Daí resulta depreciar-se, paradoxalmente, a omnipotência da linguagem: uma vez que a linguagem nada garante, tomarei a linguagem por única e última garantia: não acreditarei mais na interpretação. Do meu outro, receberei toda a palavra como um signo de verdade; e, quando falar, não porei em dúvida que ele tome por verdadeiro o que lhe disser. Daí a importância das declarações: Nada se deixa à sugestão, à adivinha: para que se saiba uma coisa ela tem de ser dita; mas também, desde que seja dita, provisoriamente, ela é verdadeira». Roland Barthes

Incurable



Ou devoro ou choro. Nada nas entrelinhas. Apenas o vazio de uma "torrente de cinzas". Navegar através das palpitações traz-me de volta os Adamastores emocionais que julgava já ter vencido. Então, pego no lápis, ou é ele que pega em mim. Escrevo. Sofregamente e pela noite dentro. Pauso. Aparo o cigarro. Apago o lápis. Apego-me ao "sonhador espacializado". Desapego-me de realidades de cetim. Por isso, por hoje, ou devoro ou choro. A era das descobertas deixo-a para lendários poetas.

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

Errata

Parece que vivo constantemente a fazê-las. Sou até um obcecado pelo assunto. A culpa, claro está, é do Fernando Aguiar, esse poeta visual e experimental que tanto estimo. Mas partilha culpas com o Almeida e Sousa, esse fazedor de coisas surrealistas, que me meteu a interpretar a “Errata – em forma de soneto com rabo” num espectáculo que teve honras de abertura de uma edição do extinto programa “Acontece”, na RTP2. E, claro, se a dita errata já me tocava, a partir desse momento ficou-me marcada na pele. Hoje, recordo-me dela (da errata, entenda-se) e de um tempo em que as erratas eram muito mais poéticas e bem mais fáceis de realizar.


Errata (em forma de soneto com rabo) - Fernando Aguiar


- Logo na primeira página, precisamente na primeira linha, onde se lê era uma vez..., leia-se finalmente...

- Na página catorze, na linha quatro, onde se lê quadro, leia-se quarto.

- Na página seguinte, na linha oito e meio, onde se lê por meio de, leia-se no meio que.

- Quase na página trinta, na linha férrea, onde se lê tanto mar, leia-se pouca terra.

- Na página rasgada, na linha de fogo, onde se lê forca, leia-se força.

- Numa página inexistente, na linha do horizonte, onde se deveria ler, leia –
- se mesmo.

- Na página do meio, na linha do equador, onde se lê em paralelo, leia-se
em diagonal.

- Na página obscura, nas entrelinhas, onde se lê fode-se, leia-se pode-se.

- Na página solta, na linha terra, onde se lê chão, leia-se cãho.

- Numa página distante, na linha do pensamento, onde se lê não penso,
leia-se mas existo.

- Ao virar da página, na linha do infinito, onde se tem muito que ler, leia-se o muito que se tem.

- Na página em branco, na linha do imaginário, onde não se lê, não se leia.

- Numa página perdida, numa linha ao acaso, onde se lê mesmo assim, leia-
- se assim mesmo.

- A páginas tantas, na linha com que cada um se cose, onde se lê entrevista-
- se, leia-se entredispa-se.

- Na última página, mesmo na última linha, onde se lê finalmente..., leia-se era uma vez...

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Linearidade emocional?

“Contudo, nada neste mundo é duradouro, e, por tal, também a alegria do segundo minuto já não é tão viva como a do primeiro; ao terceiro minuto fica ainda mais fraca e, por fim, acaba por fundir-se com o estado de ânimo ordinário, como o círculo que a pedrinha faz na água se esbate e finalmente se funde na superfície lisa do charco”.

Isso é tudo muito bonito, Gógol. Mas escasseia-me essa linearidade emocional. As ondas de furor invisíveis ao tacto são sempre audíveis nos corredores do abstracto.

Sou pelas palavras

Amanheci sem palavras. E isso é como amanhecer febril, toldado por uma fragilidade compacta, enfraquecido na essência, enrolado numa espiral de vazio. Porque as palavras são o esteio que me suporta no lento alento das horas. Da mesma forma que fico descompensado com filmes de poucas palavras, asfixiado na sua ausência, e depois desenho arquitecturas frásicas de improviso, como se estivesse a sorver vogais e consoantes avulso, soltando-as sem motivo aparente. Aparente. Apare. Apre. Ar. «Tens a cabeça cheia de palavras». Pois hoje, tenho a alma cheia de soluços.

sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

Sou...

Sou um homem, uma vaga nocturna, um espelho retorcido, uma miragem definida que busca um oásis perdido no epicentro da árida normalidade. Sou uma inebriada meditação, uma concepção esquecida, uma extasiada reflexão. Um desastre sociológico. Aparo lápis com as têmporas, mordo a realidade. Também derreto madrugadas, por vezes. E relógios, e ponteiros. Sou um atraso pontual, um crime incendiário. Banho-me com insónias, barbeio-me com furor. Porque as palavras envoltas em ferocidade ceifam-me os dias lentos. E inscrevem-se na linha dos sentidos, numa qualquer página distante.

sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

Terrenos planos

A maioria das pessoas é demasiado plana. E eu preciso de ondulações inconstantes e de vagas sem praia. Porque o que me cativa é a genialidade e esta não tem por base um terreno plano, ou um terreno sequer. Ela sente o chão a fugir e crateras a engolir. É o único gatilho do furor e pode surgir de qualquer lado. De um espírito boémio ou atinado. Clássico ou moderno. Politicamente correcto ou insurrecto. Bastardo ou adoptado, revoltado ou adaptado. Ambicioso ou conformado. Marginal ou respeitado.
Usando padrões, o exemplo dos heróis modernos diz muito sobre o comportamento dos indivíduos numa sociedade. Antigamente os heróis apenas se importavam com a glória, a imortalidade e a tragédia. Não tinham medo do confronto. E havia sempre um motivo para correr riscos: Deus, a Pátria ou um amor desmedido. O “valer a pena” era medido pelo tamanho da alma. O protótipo do herói de hoje é um homem simples, igual aos outros, a quem o destino obrigou a salvar o mundo. Ele não quer ser maior que os outros nem tão pouco especial. Não é corajoso nem sequer pródigo. Ele é herói contrariado, herói por obrigação. Tal como o herói americano, também os indivíduos planos estão mais desapaixonados, mais pragmáticos e mais funcionais. Medem as pessoas e as acções pela utilidade que lhes têm. Por preço e não por apreço. Tudo o resto são coisas do “não vale a pena”. Por isso é que me refugio nos livros, no teatro e nas esquinas da imaginação.